10.18004/rdgic.investig.estud.UNA.2025.diciembre.3016025059

Humanidades y Artes ǀ ARTÍCULO DE REFLEXÃO

*Autor para correspondência

pg54532@uem.br

Editora jefe:

Griselda A. Meza Ocampos , Universidade Nacional de Assunção (UNA). Centro Multidisciplinar de Pesquisas Tecnológicas (CEMIT). San Lorenzo, Paraguai.

Co-editora:

Juliana Moura Mendes Arrúa , Universidade Nacional de Assunção (UNA). Centro Multidisciplinar de Pesquisas Tecnológicas (CEMIT). San Lorenzo, Paraguai.

Recebido:

08 de janeiro de 2025

Revisado:

27 de june de 2025

Aprovado:

11 de julho de 2025

Recebido na versão modificada:

28 de julho de 2025

 

Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons “CC BY 4.0”.

Conflitos de Interesse: Os autores declaram não ter conflito de interesse.

e-ISSN 2709 -0817

Como citar: Duarte, J. C. V., & Oliveira, T. (2025). Preceitos educacionais contidos na Regra de Agostinho de Hipona: Um projeto para a vida em comunidade. Revista investigaciones y estudios – UNA, 16(2), pp. 60-73.

Preceitos educacionais contidos na Regra de Agostinho de Hipona: Um projeto para a vida em comunidade

Educational precepts contained in the Rule of Augustine of Hippo: a project for community life

Juliana Calabressi Voss Duarte1* , Terezinha Oliveira1

1 Universidade Estadual de Maringá (UEM). Maringá, Brasil

Resumo. Este artigo refletirá acerca dos preceitos apresentados na Regra de Agostinho (354/430 d. C.), observando que sua proposta educativa se estende além da vida monástica, oferecendo princípios aplicáveis a toda a sociedade. A Regula ad servos Dei constitui um conjunto de preceitos, formado por oito capítulos destinados a regular a vivência dos monges nos mosteiros, constituindo um espelho, ou seja, uma regra de vida a ser seguida. Para que a comunidade dos monges permanecesse em harmonia, podemos considerar que Agostinho propõe a este grupo uma filosofia de vida a ser seguida, pautada no amor, na comunhão de bens, na vida comum, na vida sóbria, na prática da castidade, na oração e no despojamento em relação aos bens terrenos. A Regra apresenta uma série de conselhos e orienta que algumas virtudes sejam praticadas na comunidade religiosa para que se aproximasse de Deus e do próximo. A fim de regular comportamentos e ações dos monges e neutralizar comportamentos que pudessem prejudicar a vida nos mosteiros é que Agostinho faz estas recomendações. O bispo de Hipona vinculado à sua época propõe regras a serem seguidas, o que nos faz refletir, em nosso tempo, sobre nossas ações enquanto educadores e pesquisadores, neste sentido nos pautamos na perspectiva da história social com vistas a longa duração.

Palavras-chave: história da educação, preceitos educativos, idade média, regra de Agostinho.

Abstract. This article will reflect on the precepts presented in the Rule of Augustine (354/430 AD), noting that its educational proposal extends beyond monastic life, offering principles applicable to the whole of society. The Regula ad servos Dei constitutes a set of precepts, made up of eight chapters, intended to regulate the life of monks in monasteries, constituting a mirror, that is, a rule of life to be followed. To maintain harmony within the community of monks, we can consider that Augustine proposes a philosophy of life for this group, based on love, the sharing of goods, a common life, sober living, the practice of chastity, prayer, and detachment from earthly goods. The Rule presents a series of advice and guides that some virtues be practiced in the religious community so that it may draw closer to God and to one's neighbor. In order to regulate the behavior and actions of monks and neutralize behaviors that could harm life in monasteries, Augustine makes these recommendations. The bishop of Hippo, linked to his time, proposes rules to be followed, which makes us reflect, in our time, on our actions as educators and researchers. In this sense, we are guided by the perspective of social history with a view to the long term.

Keywords: history of education, educational precepts, middle ages, Augustine´s rule.

 


Introdução

Agostinho (354 - 430) foi considerado como um dos Pais da Igreja e fez parte de um período denominado Patrística, contribuindo com a edificação dos elementos em defesa da fé, dos costumes e dos dogmas cristãos. Desse modo, como filósofo e teólogo, Agostinho de Hipona contribuiu e influenciou a vida da Igreja ocidental. Durante sua época, particularmente no início da era cristã, eles exibiram aspectos cruciais que determinariam o desenvolvimento do cristianismo, um novo movimento religioso que surgiu dentro do Império Romano, exigindo ações firmes, consistentes e constantes contra a sociedade e as falsas crenças.

Os escritos de Agostinho foram fundamentais para a consolidação do cristianismo, uma vez que propôs uma formação do homem e uma reorganização da vida social. A pedagogia apresentada por Agostinho tem como ponto de partida a própria realidade de sua época, os conflitos e as inquietudes que o homem de seu tempo passava, e de modo especial suas Regras se destinaram à consolidação de um grupo a partir de aspectos morais, culturais, políticos, econômicos, religiosos e sociais. Na História da Educação medieval, os Pais da Igreja apresentam relevância para a teologia e a filosofia, uma vez que foi por meio deles que houve a preservação da fé cristã e do conhecimento laico, em momentos conturbados que os primeiros cristãos tiveram que enfrentar. Fundamentaram-se nas Escrituras Sagradas ao defenderem a fé e alicerçaram a Igreja (Junior, 2022)

Junior (2022), observa que Agostinho situa-se a partir do terceiro século e está entre os autores caracterizados como latinos/ocidentais. Suas contribuições ajudaram a fortalecer a igreja, servindo como base doutrinária até os dias atuais para os cristãos. Os Pais da Igreja defendiam a fé cristã diante do paganismo e das heresias que surgiam, e os alicerces da Igreja foram se desenvolvendo por meio de seus escritos.

Agostinho deixou suas contribuições teológicas por meio de cartas, sermões e livros, e diante da vivência com o qual se deparava, se dirigia aos seus interlocutores para orientá-los a partir de uma perspectiva de ordem religiosa, antropológica, política, social e educacional. Encontramos desse modo produções que marcaram sua juventude, sua maturidade e a fase final de sua vida. Agostinho, o bispo de Hipona, escreveu 33 livros e cartas em 395 e 410, transformando a sua criatividade numa forma de dar alimento, em que apresentou o "alimento" necessário na época, envolvendo o compromisso da personalidade inteira com a Igreja católica. (Brown, 2020)

O alimento oferecido seria sua capacidade intelectual que resultaria na elaboração dos fundamentos para uma instrução e uma educação cristã. Na condição de bispo, Agostinho se deparou com questões pastorais e sociais e, como mestre, assumiu e desempenhou um projeto educativo que perpassou o seu tempo, pois muitas das suas produções serviram para direcionar ações das comunidades, religiosas ou leigas. O trabalho de Agostinho marcou uma mudança na fé cristã, focando na reelaboração do conhecimento e na cristianização. Apesar da negligência do tratamento episcopal, o trabalho de Agostinho exibiu características únicas que se alinhavam com a política de seu tempo, demonstrando uma transformação do pensamento. Este projeto educacional na comunidade de Hipona e nas igrejas do norte da África foi uma parte significativa da mobilização, representando um projeto político no sentido original de aceitação da pólis. (Tavares Magalhães, 2019)

Em seu itinerário, Agostinho se posiciona acerca de questões que iam surgindo em seu contexto e quando fazemos referência à sua vida, há de se considerar uma dualidade agostiniana, pois passou por algumas experiências nas primeiras três décadas de sua vida que o fizeram refletir posteriormente acerca de suas ações: jogos, bebidas, roubo e mulheres. Após este período, voltou-se ao entendimento e à vivência da sua interioridade. Na obra Confissões (397) é possível identificar seu itinerário desde sua tenra idade até sua conversão definitiva ao cristianismo, religião que o fez defender e responder às questões do seu tempo, assumindo um objetivo educativo – a santificação do homem. (Augustinus Hipponensis, 1997)

Por meio de sua trajetória (de professor a bispo), Agostinho vivencia várias experiências nos campos familiar, social e religioso. Podemos considerar que neste processo foi amadurecendo intelectualmente, o que possibilitou um crescimento na fé com vistas a ações voltadas ao bem comum.  Após um longo processo de conversão ao cristianismo, voltou-se para as questões pastorais, buscando fundar e viver uma vida monástica. Sua primeira experiência de retirada ocorreu após sua conversão, na qual se dirige para uma casa de campo conhecida como Cassicíaco, cedida por um amigo, e a partir daí inicia suas reflexões de ordem filosófica e teológica.

Agostinho assume a função de educador em seu círculo composto pelo clero e por leigos devotos da África. Em território africano, Agostinho se apresenta como um mestre do cristianismo, em que passou a formar as pessoas, segundo os princípios do cristianismo.  Neste período (388 d.C.), o autor já havia avançado em um processo de formação intelectual, moral e espiritual. (Brown, 2020)

A exemplo de suas contribuições de caráter educativo e teológico, temos o texto de sua Regra, escrita por volta do ano de 397, visando educar e regular a vida dos monges de Hipona, local onde Agostinho era bispo. Este documento apresenta os aspectos necessários para que se pudesse viver conforme os princípios cristãos, tratando, pois, de normas de comportamento concretas, preceitos destinados a regular a vivência de uma comunidade monástica cristã.

Frente às contribuições de seus escritos para responder questões do seu tempo, Agostinho direciona aos monges este conjunto de preceitos, apresentando a eles um ideal de comunhão. A Regra se apresenta aos Servos Dei (Servos de Deus) tendo por princípio um núcleo essencial: o amor.

O objetivo deste estudo é identificar os preceitos educativos contidos na Regra de Agostinho (397), um texto com caráter orientativo que apresenta uma série de condutas a serem seguidas com a finalidade de restaurar a harmonia em sua comunidade e a bem-viver os preceitos evangélicos.  

Prescrições para a vida comunitária

Depois de sua conversão ao cristianismo, Agostinho muda o foco dos seus planos pessoais e sociais: “em poucos meses, Agostinho abandonou o casamento, o cargo público e as esperanças de segurança financeira e prestígio social” (...) (Brown, 2020). 

No ano de 386, Agostinho, em companhia de alguns parentes (mãe, filho e irmão), amigos e discípulos, se retira para uma casa de campo situada em Cassicíaco, perto de Milão. Neste local, o grupo se põe a refletir sobre temas que resultaram em algumas das obras agostinianas como:  A Vida Feliz (386), Contra os Acadêmicos (386), A Ordem (386) e Solilóquios (386-387).

Em seguida ao seu batismo e ao de seu filho Adeodato em 387, Agostinho propõe-se a voltar para terras africanas, nas quais pretendia se dedicar à vida monástica. Quando chega à África (388), dedica-se ao serviço do cristianismo, por meio da oração e do estudo: “seguindo o preceito evangélico da pobreza, estabeleceu uma espécie de mosteiro, vivendo em companhia de seus amigos. Daquela primeira comunidade nasceu o ideal de vida monástica do Ocidente” (...) (Costa, 2014)

No norte da África, Agostinho assumiu a função de estabelecer e consolidar a doutrina cristã, por meio de princípios educativos. “Sua ação no cristianismo, sustentada em sua notoriedade intelectual, levou-o à sua ordenação como bispo dessa cidade em 395. Enquanto bispo foi um exímio articulador de grandes temas teológicos, ao dedicar sua vida à elaboração da vida cristã” (...) (Pirateli, 2014)

Como bispo de Hipona, Agostinho teve que enfrentar e posicionar-se frente aos desafios que surgiram, atuou como pastor, escritor e orientador. Os problemas observados por Agostinho eram de ordem moral e social, pois o Império Romano estava em decadência e havia, por parte de alguns grupos, considerados como pagãos, o ataque à fé cristã como causa desse declínio, frente a estes ataques decorridos de atos violentos, Agostinho foi assumindo uma postura educativa a fim de controlar ações humanas que em certa medida estavam provocando uma desordem social. Agostinho viveu em um período de profundas transformações sociais, políticas e religiosas no Império Romano. Ele abriu diversos debates sociais e intelectuais que marcaram sua vida e pensamento, contribuindo para moldar sua teologia e visão de mundo. 

A Regra escrita por Agostinho é uma das mais antigas regras monásticas cristãs e serve como guia espiritual e organizacional para comunidades religiosas. A estrutura da regra, dividida em oito capítulos, reflete o pensamento do bispo de Hipona, enfatizando a vida comunitária, a caridade, a transparência e a busca de Deus. No conteúdo da Regra estão questões sobre: amor, caridade, unidade, vida em comum, vida espiritual e moral, oração, devoção, autocontrole, obediência, disciplina e trabalho.

Amor e caridade como fundamento central

No início do texto da Regra encontramos esta expressão de ‘uma só alma e um só coração’, em que Agostinho se baseia no texto das sagradas escrituras para fazer menção à comunhão de coração:

Sobre o amor a Deus e ao próximo, a união dos corações e a comunidade das coisas. Primeiro, porque vocês se reuniram como um só corpo, para que vocês possam viver em uma só casa com uma só mente e para que vocês tenham uma só alma e um só coração para com Deus. (Augustinus Hipponensis, 2001e).

O texto da Regra inicia fazendo este apelo àqueles que a seguirem, vivendo unidos e em comunhão. Ela seria seguida pelos mosteiros agostinianos e seu ideal estendeu-se para outros espaços da África. Os bispos que haviam sido ordenados levaram o monacato de Agostinho a outras igrejas locais.

Os conteúdos da Regra estavam presentes em seus sermões. Tomamos como exemplo o Sermão 355, no qual Agostinho de Hipona narra sobre a vida e os fala da vida e dos costumes na comunidade dos clérigos e discorre sobre a observância monástica do voto de pobreza. Neste sermão, dirige-se aos clérigos tratando da vida comum. Na ocasião discorreu sobre o despojamento dos bens terrenos:

Nada trouxe. Vim a esta igreja só com a roupa do corpo. E como tinha o propósito de viver num mosteiro com os irmãos, o ancião Valério (bispo), de feliz memória, conhecendo minha intenção e desejo, me ofereceu a propriedade onde agora se encontra o mosteiro. Comecei a reunir irmãos com o mesmo bom propósito, pobres e sem nada como eu, que me imitassem. Como eu tinha vendido meu escasso patrimônio e dado aos pobres seu valor, assim deviam fazer aqueles que quisessem viver comigo, vivendo todos do comum. Deus seria para nós nosso grande, rico e comum patrimonio. (Augustinus Hipponensis, 2001d)

O sermão, faz a indicação da vivência de uma vida pautada no despojamento, sem apegos a vida material. Agostinho vendeu os bens herdados para desfrutar de uma vida simples e, com o seu exemplo, indica aos clérigos que o bem maior não está na posse dos bens materiais e mutáveis, mas no eterno. No sermão, Agostinho se coloca como modelo a ser imitado, apresentando-se como modelo a ser seguido. Com esta orientação, a propagação de um ideário de vida comum é recomendada, ou seja, que entre os membros do monastério não deveria haver competições para ver quem se vestia ou comia melhor, pois tudo o que se tinha naquele ambiente era de uso compartilhado.

Assim, como aparece no sermão citado, o bispo de Hipona reforça a ideia de que nada é próprio de ninguém, mas que tudo seja coletivo. Antes do voto de pobreza, uma das observâncias da vida monástica, tanto freiras quanto monges deveriam se despojar de todos os seus bens, sendo o mosteiro o responsável pelo fornecimento de tudo o que for necessário a cada um. No livro dos Atos dos Apóstolos há a expressão da proposta da vida comum quando trata da primeira comunidade cristã: “A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (...) (Bíblia de Jerusalém, 2002). 

Entendemos que uma regra indica algo para regular certas ações ou comportamentos. Provavelmente Agostinho, ao elaborar essas indicações, buscava regular certos comportamentos que em certa medida precisavam de orientações para manter a ordem de uma determinada instituição, assim como aconteceu na carta (211) escrita por Agostinho em 424 às monjas, cuja finalidade foi restaurar a harmonia nesta comunidade. Nela, Agostinho dirige às monjas, encontramos muitas semelhanças com as orientações contidas nas Regras destinadas aos Servos de Deus. A este grupo de mulheres, Agostinho prescreveu uma regra de vida ao perceber que estava havendo certas tensões e rivalidades no mosteiro: “Lamentemos os cismas internos no mosteiro” (...) (Augustinus Hipponensis, 2001b).

Na Regra de Agostinho encontramos elementos essenciais para a vivência das virtudes, em que dá destaque primeiramente ao amor como base das demais virtudes. A Regra está organizada em oito capítulos em que são apresentadas orientações de conduta a serem seguidas.

Princípio da humildade

Segundo o princípio do ideal da comunhão, Agostinho trata no primeiro capítulo da Regra sobre a humildade como a virtude necessária para se constituir uma verdadeira comunidade. Sobre a humildade o bispo orienta que os pobres que chegam no mosteiro que se conservem humildes e não busquem as vaidades terrenas:

Os que tinham algo na sociedade quando entraram para a casa religiosa, coloquem de bom grado à disposição da comunidade. E os que nada possuíam, não busquem na sua casa religiosa aquilo que fora dela não puderam possuir. No entanto, conceda-se à sua debilidade o quanto for necessário, ainda que em sua pobreza, quando estavam na sociedade, não lhes fosse possível dispor nem mesmo do necessário. Mas por isso se considerem felizes por haverem encontrado o alimento e a roupa que não podiam possuir enquanto estavam fora. Nem se orgulhem por ver-se associados àqueles aos quais fora nem se atreviam a aproximar-se; pelo contrário, elevem seu coração e não busquem as vaidades terrenas e não aconteça que as comunidades comecem a ser úteis para os ricos e não para os pobres, se nela os ricos se fazem humildes e os pobres altivos. (Augustinus Hipponensis, 2001e)

E aos ricos orienta que se tornem humildes e não sejam soberbos:

E aqueles que eram considerados algo diante da sociedade, não se atrevam a desprezar a seus irmãos que vieram à santa sociedade sendo pobres. Pelo contrário, devem se gloriar muito mais pela comunidade dos irmãos pobres que da condição de seus pais ricos. Nem se vangloriem por ter trazido alguns de seus bens à vida comum, nem se ensoberbeçam ainda mais por suas riquezas por havê-las compartilhado com a comunidade de que se as desfrutassem na sociedade. Pois, acontece que outros vícios levam a executar más ações; a soberba, entretanto, se insinua até nas boas ações para que pereçam. E de que adianta distribuis as riquezas aos pobres e fazer-se pobre se a alma se torna mais soberba desprezando as riquezas do que possuindo-as? (Augustinus Hipponensis, 2001e)

A humildade configura-se como a base da vida cristã no sentido do serviço, da partilha, do despojamento e da simplicidade. Em outros sermões, Agostinho dá destaque à prática da humildade, chegando a atribuir a ela a via para se chegar à verdade. Nesta perspectiva, a humildade se configura como uma atitude do homem perante Deus, reconhecendo-se sua criatura. Ao contrário da soberba, que nega esta condição de sujeição do homem em relação a Deus. Se a intenção de Agostinho era manter uma certa ordem entre os membros do mosteiro, praticar a humildade seria uma via para se alcançar este objetivo, considerando que esta virtude é fundamental para o cristianismo.

Agostinho reconhece a dupla natureza de Jesus Cristo - humana e divina - conforme consta no Tratado XXI  Si ergo novimus hunc, qui nobis loquitur, et Deum et hominem, intellegamus verba Dei et hominis: aliquando enim talia nobis dicit quae pertineant ad maiestatem, aliquando quae pertineant ad humilitatem” (...). (Augustinus Hipponensis, 2001c)

Cristo se configura como o caminho da humildade em contraposição a soberba, que havia afastado o homem de Deus por inveja.

 

Oração perseverante e sentida

Na observância da Regra, Agostinho, no segundo capítulo, orienta a perseverança nas orações, e que cada uma seja respeitada conforme o tempo e as horas estabelecidas. A prática da oração deveria ir além da oralidade, devendo perpassar pelo coração. Sobre a prática da oração o bispo de Hipona dispõe:

O lugar de oração seja usado apenas em função daquilo para o qual foi feito e do qual tira o nome. Se, portanto, alguém, dispondo de tempo, quiser orar também fora das horas marcadas, não seja impedido por quem quiser fazer aí qualquer outra coisa. Quando estais orando a Deus com salmos e cânticos, repassai no coração o que proferis com os lábios. (Augustinus Hipponensis, 2001e)

A partir destes preceitos, a oração não deve ser, portanto, uma prática a ser realizada em qualquer local e esta deve ser sentida pelo coração e não apenas professada pela voz. É possível perceber um rito a ser seguido nas atividades cotidianas daqueles que estavam no mosteiro. Há momentos destinados a práticas específicas no decorrer do dia do religioso, assim havia momentos para orações, afazeres domésticos, alimentação e higiene.

Moderação e vida sóbria

Outro princípio disposto no texto da Regra trata da moderação, ou seja, da vida sóbria que se encontra no terceiro capítulo. Orienta que os monges devem coibiros desejos da carne em relação ao quanto comer, conforme a saúde permitir, deve praticar o jejum e a abstinência: “Domine sua carne jejuando e abstendo-se de comida e bebida, tanto quanto sua saúde permitir. Mas quando alguém não pode jejuar, ele não deve comer nada fora do horário da refeição, exceto quando estiver doente” (...) (Augustinus Hipponensis, 2001e)

Nesta orientação de jejuar e abster-se, Agostinho dá importância à virtude da moderação com vistas ao equilíbrio nas ações do homem, deste modo, no momento das refeições, que não apenas a boca receba alimentos, mas que o coração, por meio da oração própria do momento, também se alimente da palavra de Deus. O próprio ato de comer vai além das necessidades corporais, há uma interrelação entre o saciar o corpo e a alma, esta última por meio da oração. Aqui também podemos identificar a prática da virtude da temperança como reguladora dos excessos na vida dos monges. Com esta prática seria possível ter controle sobre si resistindo ou eliminando da vida os possíveis abusos da vida terrena com vistas à cidade celeste. Por meio da prática das virtudes, Agostinho defendia que o homem poderia ainda nesta vida peregrinar rumo à santificação.

Comportamentos e virtudes essenciais

Na sequência da Regra, o bispo de Hipona orienta sobre a necessidade de se ter uma discrição no comportamento, neste sentido orienta sobre o modo de se vestir, como se comportar (incluindo gestos corporais) e o cuidado com o olhar que se lança ao outro. No quarto capítulo trata então da disciplina do olhar e da correção fraterna. Assim recomendou:

Não procurem chamar a atenção pela forma de andar, nem agradar pelas roupas, mas sim pela conduta. No andar, no estar parados e em todos os seus movimentos, não façam nada que incomode àqueles que os vêem, mas aquilo que está de acordo com a consagração de vocês. Ainda que seus olhos se encontrem com alguma mulher, não os detenham em nenhuma. Porque não lhes é proibido ver mulheres quando saírem de casa; o que é pecado é desejá-las ou querer ser desejados por elas. Pois não apenas com o toque e o afeto, mas também com o olhar se provoca e nos provoca desejo das mulheres. Assim também, o que fixa o olhar numa mulher e se deleita em ser olhado por ela não deve supor que não é visto por ninguém quando faz isto; certamente é visto e por aqueles que ele nem imagina que possam ver. Porém, mesmo que permaneça oculto e não seja visto por ninguém, que dirá d’Aquele que conhece o coração de cada pessoa e a quem nada se pode ocultar. (Augustinus Hipponensis, 2001e)

Agostinho, com estas orientações a serem seguidas pelos monges, buscou limitar todo comportamento que viesse de alguma forma a comprometer a reputação desses homens, ou melhor dizendo, da instituição que estes homens representavam, a Igreja. Deste modo, ações, comportamentos e até pensamentos deveriam seguir as condutas prescritas a fim de evitar problemas de ordem moral.

Uma das formas de conter certos comportamentos seria a prescrição de conduta, assim, a prática da castidade ajudaria a inibir os impulsos decorrentes do desejo sexual. Paralelamente a esta orientação da continência, há na Regra a indicação de uma correção caso estes regulamentos não sejam seguidos. A correção fraterna é uma expressão usada a fim de corrigir comportamentos que se desviassem daqueles propostos pelo mosteiro, ou seja, caso se percebesse que entre os religiosos tivesse ocorrido alguma situação do que fora exposto, este homem deveria ser corrigido ainda no início dos seus atos de forma privada por apenas uma pessoa. Contudo, caso a falta continuasse sendo cometida, mesmo diante da primeira correção, esta deveria ser feita agora por dois responsáveis para que uma segunda pessoa passasse a saber do ocorrido e que assim o consagrado ficasse consciente do seu erro a partir do posicionamento de duas ou três pessoas diferentes. Assim, após convencido de seu erro, deveria cumprir o corretivo que julgar oportuno o superior ou presbítero. A correção cumpre um papel pedagógico, pois a partir de uma instrução, mesmo assim caia no erro, é possível o reconhecimento da falha cometida.  Porém, caso se recusasse a cumprir o que fora determinado, este monge deveria ser eliminado da comunidade para que não corrompesse os demais.

Com este modelo de correção final seria abolido aquele que, de certa forma, se tornaria um perigo para a manutenção da ordem e o seguimento das regras do mosteiro. A situação ou ação que pudesse comprometer a imagem desta instituição religiosa deveria ser extinta, uma vez que ela estava se consolidando e que possivelmente seria seguida por outras ordens e congregações.

A Regra faz referências às recomendações do uso dos bens e ao cuidado com o corpo. No quinto capítulo indica que assim como a despensa é única a todos os consagrados, o guarda-roupa também será comum a eles, incluindo as vestimentas.

Mantenha suas roupas juntas, sob uma ou duas guardas, ou o que for suficiente para sacudi-las, para que não sejam danificadas por traças; e como você se alimenta de um armazém, você se veste de um guarda-roupa. E, se possível, não vos preocupeis com o que haveis de vestir segundo o tempo, se cada um de vós deve receber o que deu, ou outra coisa que o outro teve; enquanto, no entanto, o que cada um precisa não é negado, o quanto você carece daquele santo hábito interior do coração, que você luta pelo hábito do corpo. No entanto, se sua fraqueza é tolerada, para receber o que você deu, ainda em um lugar, sob guardiões comuns, tenha o que você deu. (Augustinus Hipponensis, 2001e)

Além do caráter teológico que Agostinho buscou deixar expresso nestas orientações, os de caráter educativo também se destacam nos seus escritos - pois não podemos perder de vista que parte de sua atuação profissional foi na condição de mestre. Por meio de suas orientações, ele buscava moldar o homem a partir de um comportamento pautado nos ensinamentos do cristianismo, sendo que a prática das virtudes seria condutora para se viver de forma harmoniosa, seja nas ordens religiosas, seja na comunidade à qual pertenciam.

Nestes preceitos educativos, o bispo orientava que reclamações e disputas não deveriam existir entre os cristãos, pois em relação às vestimentas havia uma veste mais importante que precisa ser conquistada – a veste superior – aquela que vai além do corpo. A cidade celeste, à qual Agostinho fazia menção, estava fundamentada na obediência ao seu Criador, “o que para ele significava a alma sobressair ao corpo, isto é, a razão dominar as paixões” (...). (Pirateli, 2012)

 Com este discurso esperava-se que intrigas e rixas fossem eliminadas do convívio humano, mantendo uma unidade entre os homens e todo trabalho a ser desenvolvido deveria primar o bem da comunidade, com cuidado e prontidão. O bem comum neste caso deve sobrepor o bem particular:

Deste modo, é claro, que ninguém trabalhe para si mesmo, mas que todo o seu trabalho seja feito em comum, com maior diligência e entusiasmo mais frequente do que se o estivesse fazendo individualmente. Pois a caridade, da qual está escrito que não busca o que é seu, 21 assim se entende, porque prefere as coisas comuns às suas, e não as suas às comuns. E, portanto, quanto mais você cuidar da causa comum do que da sua, mais saberá que progrediu; para que em todas as coisas de que se serve a necessidade transitória, seja preeminente o que permanece, a caridade. (Augustinus Hipponensis, 2001e)

Para Agostinho, havia uma sociedade ideal, que era a sociedade cristã, e para legitimar sua proposta de formação desta sociedade, ele defendia a vida coletiva e não a individual. Sobre esta questão, Pirateli observa o pensamento agostiniano acerca da vida comunitária:

A vida moral pressupunha uma vida em comunidade, que criasse as necessárias condições de vida cristã para o também homem novo, o homem cristão; pressupunha igualmente a vontade desse novo homem de que os demais homens fossem seus companheiros; assim, com o compartilhar dos bens espirituais e dádivas da vida cristã, o amor imprimiria ao modus vivendi do novo homem um sentido comunitário (Pirateli, 2012)

Em Agostinho havia uma preocupação em relação à conduta dos membros do mosteiro e orientava que não se deslocassem sozinhos ou sem permissão, seja em banhos públicos, seja em outros lugares: “Que ninguém vá aos banhos públicos ou a qualquer outro lugar onde for necessário menos de dois ou três. E aquele que precisar ir a alguma parte, não vá com quem queira, mas com quem mandar o Superior” (…) (Augustinus Hipponensis, 2001e)

E que todo trabalho realizado na despensa, com as roupas ou com os livros seja feito sem remuneração. Aqui mais uma vez encontramos menção ao despojamento de bens em virtude dos votos de pobreza, uma vez que o trabalho dos monges não era remunerado.

Princípio da obediência

Outro preceito expresso na Regra era sobre o respeito entre os membros do mosteiro, havia assim a orientação para que não houvesse nenhum tipo de desentendimento entre os monges. Mais uma vez, existe a preocupação em manter a ordem e a obediência, deste modo, o sentido do capítulo seis está baseado no perdão das ofensas:

Não haja contendas entre vocês, ou se as houver, terminem-nas depressa para que a ira não chegue até o ódio e de uma palha se faça uma viga, convertendo-se a alma em homicida; pois assim se lê: o que odeia seu irmão é homicida. (Augustinus Hipponensis, 2001e)

Caso haja ofensas entre os pares, ocorra o perdão mútuo, pois caso contrário, as palavras professadas na oração do Pai Nosso não expressam validade.

A obediência insere-se neste rol de indicações, é uma ação que deve sempre estar presente no ambiente do monastério, principalmente na relação dos monges com o superior ou presbítero. Estas autoridades deveriam ser obedecidas como se fossem os pais que guardam e zelam por seus filhos. Nesta relação entendemos que o superior assume a função de um pai que ensina, que provê e respeita seus discípulos. Assim o capítulo sete baseia-se no amor, na autoridade e na obediência. Sobre a autoridade e a disciplina orienta:

Mas aquele que está acima de vocês não pense que governa por poder, mas sim que serve com amor. Seja ele posto diante de ti em honra, e colocado debaixo dos teus pés em temor diante de Deus. Que ele dê o exemplo de boas obras para todos, que corrija os inquietos, conforte os tímidos, apoie os fracos, seja paciente com todos. Que ele tenha disciplina de bom grado, que ele imponha medo. E embora ambas sejam necessárias, ele deseja ser amado por você mais do que temido, sempre pensando que dará contas a Deus por você. (Augustinus Hipponensis, 2001e)

A condição de posição superior em relação aos demais não implica que o superior deva agir com soberba diante dos consagrados e que seria mais exemplar ser amado que temido entre os membros.

Agostinho finaliza a Regra observando que toda ação realizada deve ser movida pela caridade, expressando Cristo nas obras. O bispo pede então que o pequeno texto da Regra não caia no esquecimento e que seja cumprido e observado o que nele contém:

Agora que você pode olhar neste livrinho como em um espelho, para que por esquecimento você não negligencie algo, é lido para você uma vez por semana. E quando você se achar fazendo as coisas que estão escritas, dê graças ao Senhor, o doador de todas as coisas boas. Mas, quando algum de vós vir que lhe falta alguma coisa, lamente o passado, acautele-se com o futuro, orando para que a sua dívida seja perdoada e para que não caia em tentação. (Augustinus Hipponensis, 2001e)

Aqueles que desejavam permanecer no monastério deveriam obedecer às orientações descritas na Regra, para que pudessem viver segundo os preceitos dos primeiros cristãos: a comunhão fraterna na observância da Lei de Deus.

Os preceitos da Regra de Agostinho de Hipona estão presentes em suas obras dedicadas à vida monástica e comunitária. Na Epístola 211, por exemplo, Agostinho fornece conselhos práticos às mongas de Hipona sobre a vida comunitária, abordando temas que são centrais na Regra: a caridade, a obediência, a humildade e a castidade. A partir destas orientações, Agostinho pretende manter a ordem nos mosteiros que, por certa ocasião, estavam causando cisma no mosteiro das mulheres.

Não desejo dizer o que se segue; por isso desejo mais, e oro, e exorto, que o próprio fermento seja convertido em algo melhor, para que toda a massa, como quase já aconteceu, não seja convertida em algo pior. Portanto, se rejeitastes a sã sabedoria, orai para que não entreis em tentação, nem em contendas, nem em inimizades, nem em dissensões, nem em insultos, nem em motejos. Pois não plantamos nem regamos o jardim do Senhor em vocês, para que de vocês ceifemos estes espinhos. Mas se a sua fraqueza ainda o incomoda, ore para que você seja libertado da tentação. Mas aquelas coisas que o incomodam, se ainda o incomodam, a menos que se corrijam, sofrerão julgamento, seja qual for. (Augustinus Hipponensis, 2001b)

Agostinho orienta as freiras para permanecerem firmes e não caiam nas fraquezas e tentações, caso contrário, sofrerão as punições necessárias.

Na Epístola 22, o bispo de Hipona também discute acerca da vida monástica, em especial o comportamento e a disciplina dentro da comunidade. Há nessa carta a indicação dos vícios a serem observados e adotados dentro da comunidade, como a discórdia, a falta de humildade, a devassidão, a embriaguez, a fornicação e as folias. Essas condutas deveriam ser, na concepção de Agostinho, abolidas pela autoridade dos concílios: “A folia e a embriaguez devem ser completamente proibidas nas igrejas.(...) 2. 7. Mas o que me importa dizer sobre a contenda e o engano, quando esses vícios são mais sérios não entre as pessoas comuns, mas entre nós mesmos” (Augustinus Hipponensis, 2001b)

As recomendações prescritas indicam novamente que havia comportamentos que divergiam daquilo que era defendido pela comunidade monástica, fato que requer uma ação educativa para neutralizar condutas inapropriadas ao que era pregado pela comunidade.

Sobre o trabalho dos monges (De Opere Monachorum), Agostinho defende a importância do trabalho manual para os monges, em oposição à ociosidade. Ele argumenta que os afazeres são uma forma de serviço a Deus e a comunidade. Na obra, o bispo reflete acerca da passagem do apóstolo Paulo que diz: quem não quer trabalhar não deve comer ou o que adianta um servo preguiçoso receber um talento e escondê-lo? Sobre essas questões Agostinho fez referência às pregações de Paulo e seu itinerário:

Primeiro, portanto, devemos demonstrar que o bem-aventurado apóstolo Paulo queria que os servos de Deus realizassem obras corporais, que resultariam em grande recompensa espiritual, para que não precisassem de comida e roupa de ninguém, mas as obtivessem para si mesmos com suas próprias mãos. Então, devemos mostrar que aqueles preceitos evangélicos, sobre os quais alguns incentivam não só a preguiça, mas também a arrogância, não são contrários ao preceito e exemplo apostólico. (Augustinus Hipponensis, 2001a)

Na Regra o trabalho é uma questão presente nas orientações de Agostinho em que se devia trabalhar para o bem comum e como forma de doação, pois os monges não seriam recompensados materialmente por essa ação. Prescreve ainda nas orientações que o orgulho deve ser evitado e, assim como está contido na Regra, deve haver o cumprimento em relação àquilo que se estabelece em relação ao cuidado com os doentes, com os horários de oração, jejuns e abstinência, o cuidado com o corpo e vestimentas.

Considerações

Em seu itinerário, Agostinho apresenta-se como um mestre do cristianismo em que sua influência se estende às áreas da teologia, filosofia e vida prática. Há em seus escritos a presença de ensinamentos sobre humildade, caridade, fé, razão, graça e vida comunitária, oferecendo uma formação para os cristãos, visando o desenvolvimento moral, intelectual, espiritual e social.

Quando Agostinho de Hipona faleceu no ano de 430, já havia deixado alguns fundamentos para a disciplina monástica cujo objetivo era orientar, por meio de um conjunto de regras, os monges a bem-viver nos mosteiros seguindo os ensinamentos cristãos.

Destacamos, contudo, que em sua fase de maturidade, Agostinho, voltando-se para o contexto de conflito social e religioso de então, apresentou aos homens um projeto formativo pautado na doutrina cristã. Assim, podemos considerar que as regras – embora formuladas para monjes e monjas – ecoavam valores que abarcavam as diversas esferas da vida medieval, uma vez que propunham diretrizes para a formação do indivíduo e da vida comunitária.

A formação moral, bem como os princípios de solidariedade, harmonia, a subordinação dos interesses individuais ao bem comum, a humildade e a disciplina são práticas que estavam no ámbito monástico e ressoavam diretamente na formação comunitária daqueles que buscavam seguir os preceitos cristãos do período.

Na apresentação da Regra de Agostinho é possível reconhecer que o bispo de Hipona se apoia nos escritos dos Atos dos Apóstolos (2, 44) - no ideal dos primeiros cristãos: a comunhão - para expressar o estilo de vida que deveria nortear aqueles que iriam viver nos mosteiros: “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um” (...) (Bíblia de Jerusalém, 2002).

No ensinamento da Regra existe uma relação de aprendizagem por parte dos monges que devem ouvir, assimilar e colocar em prática os ensinamentos recebidos dos superiores. Os vícios devem ser controlados e a prática das virtudes deve direcionar as ações cotidianas dos membros dos mosteiros. A Regra busca então auxiliar os monges no trabalho de sua formação cristã em que o próprio ambiente se mostra como um lugar disciplinado a fim de facilitar o processo educativo: escutar, observar e obedecer aos preceitos contidos na Regra.

Para viver a unidade em comunidade, os monges deveriam voltar-se para as questões que o conduziram à Cidade de Deus – que são imutáveis e eternas, despojando-se das terrenas e mutáveis.  Assim não deveriam almejar ou até mesmo esconder no monastério objetos que não fossem de uso comum, pois caberia aos superiores desta instituição o fornecimento de tudo o que fosse necessário.

Conforme as orientações de Agostinho, a vida religiosa necessitava da presença da humildade para que se mantivesse a unidade entre os pares. O uso dos bens – roupas e alimentos – deveria ser para a satisfação das necessidades básicas e o trabalho deveria ser em favor do outro e não do próprio interesse. Toda ação dentro do monastério deveria expressar, segundo Agostinho, a presença de Deus, por isso não deveria exercer atitudes que não edificam suas vidas.

O bispo de Hipona observou virtudes e práticas essenciais para a vida religiosa dando ênfase a ações de amor ao próximo, o voto de pobreza, a obediência ao superior, o desapego do mundo, a repartição do trabalho, a vida sóbria, a vivência da castidade, a oração em comum, o jejum e a abstinência conforme a saúde permitir, a correção e o perdão fraterno. Neste sentido, observam-se os fundamentos da disciplina e ordem expressos na Regra, estabelecendo padrões para os hábitos e costumes daqueles que viviam nos mosteiros. A Regra fazia indicações úteis aos monges e também servia de instrumento e guia para que todos pudessem viver uma vida comunitária e espiritual, incluindo instruções sobre a oração, a vida em comum, o trabalho, a caridade e a disciplina. A partir dos princípios evangélicos, Agostinho apresenta a missão pedagógica do ensino das virtudes a serem praticadas entre aqueles que aspiravam a viver a vida pautada na fé cristã.  Desse modo, suas orientações expressam uma proposta que extrapola a dimensão monástica.

Nas exortações finais deste conjunto de preceitos a ser seguido, Agostinho orienta para que eles não caiam no esquecimento, e que deveriam ser lidos semanalmente e que o pequeno livro pudesse ser para os leitores um espelho.

No conjunto de obras contendo os princípios das Regras, Agostinho valorizava a vida em comunidade, incluindo a vida em comum, a pobreza, a obediência, a castidade e o trabalho. A Regula ad Servos Dei é particularmente significativa, pois é a base para a Regra do bispo, sendo adotada por várias ordens religiosas ao longo dos séculos. Estes princípios possuíam uma universalidade que permitia sua aplicação a outros segmentos da sociedade medieval ao oferecer um arcabouço para a formação moral - preceitos necessários para a organização comunitária e para a promoção de valores éticos e morais a partir dos princípios da Igreja Cristã que se firmava como a principal força de coesão social e cultural.

A Regra de Agostinho apresenta-se como um texto de caráter normativo e formativo que busca orientar a vida comunitária a partir de fundamentos éticos e espirituais. Sua estrutura interna revela um equilíbrio entre as dimensões moral, religiosa e educativa, organizadas em torno de princípios que regulam tanto a convivência cotidiana quanto o crescimento pessoal de cada membro. As prescrições para a vida comunitária, juntamente com os eixos do amor e da caridade, da humildade, da oração, da moderação, das virtudes essenciais e da obediência, configuram um modelo pedagógico destinado à construção de comunidades baseadas na harmonia, no serviço e na responsabilidade compartilhada. Dessa forma, o texto agostiniano transcende o seu contexto monástico original para oferecer uma proposta educativa e ética de notável atualidade, convidando à reflexão sobre a formação integral do ser humano e sobre a importância do vínculo comunitário como espaço de aprendizado e realização espiritual.

Contribución de autores:  1.Conceptualización: J.C.V.D., T.O. ; 2.Curación de datos: J.C.V.D., T.O.; 3.Análisis formal: J.C.V.D., T.O. ; 4.Adquisición de fondos: XX ;5.Investigación: J.C.V.D., T.O. ; 6.Metodología: J.C.V.D., T.O. ; 7.Administración del Proyecto: ; 8.Recursos:  ; 9.Software: ;  10.Supervisión: J.C.V.D., T.O.  ;11.Validación: J.C.V.D., T.O. ;12.Visualización: J.C.V.D., T.O.  ; 13.Redacción-borrador original: J.C.V.D., T.O.; 14.Redacción-revisión y edición:   

Fuente de Financiamiento: Sin fuente de financiamiento.

Disponibilidad de datos: Los datos utilizados en esta investigación podrán ser solicitados al autor de correspondencia según pertinencia: Juliana Calabressi Voss Duarte, correo electrónico: pg54532@uem.br

Revisión por pares: Este  artículo fue  evaluado mediante un  proceso de  revisión  por pares anónima.

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